Vida Noturna em Contagem

Carros turbinados, karaoquês, jukebox

Por Vinícius Fernandes Cardoso

A noite começa de tarde, com a maquiagem do automóvel, ou melhor, nave terrestre fluorescente, discoteca ambulante. Marx explica: fetichismo da mercadoria. E a noite vai começando no final da tarde, com a maquiagem do motorista, quer dizer, piloto. A mocinha também se apronta, naturalmente. A maioria mesmo em casa, as ruas esvaziadas: deserto do real. A renda da ‘classe média’ caiu, esta, que havia se aburguesado nas vacas gordas, agora proletarializa-se nas vacas magras. Os embalos de sábado à noite já não são aqueles embalos, os sábados substituído pelas quintas e sextas, os domingos sendo esticados… A maioria mesmo em casa, vendo DVD, fazendo ou não fazendo o quê? ‘Movimento caseiro, o melhor que tá tendo’, ironiza o engraçadinho.

Vida NournaJuno Morais filtrou o “romantismo” da noite contagense, iluminada pela luminosidade do vapor de sódio

A vida noturna de Contagem deixa a mostra uma cidade de oásis, feita mais de vazios do que de preenchimentos. Composta de regiões, Contagem não deixa muita margem para um ethos geral, uma cosmogonia na qual seja possível encontrar lazer noturno acessível e saudável generalizadamente. O que temos são pontos de pequena aglomeração, como que vaga-lumes numa escuridão completa, o que, aliás, não é tão diferente de outras paragens. Lugares estes que, cada vez mais, são assimilados por um processo de padronização global.

Dos bares viradores noite-toda, o famigerado 24h da antiga Rua Veneza virou padaria. Perto dali, na Av. Londres, o “Rango & Gole” entrou no espeto faz data. Quem se lembra do Gaudêncio, em frente ao Centro Cultural de Contagem? Era 24h, abrigou, inclusive, evento da Academia Contagense de Letras, não sobra nem ruína. Já era o Balaio, no Eldorado, substituído pelo Berimbau Circo Bar, de mesmo dono. Do lado, o Butiquim, com música ao vivo. Do outro lado da avenida, o Hangar. Na José Faria da Rocha, o Aquarela Mineira, descolado.

Onde fica o Motochop tornou-se lugar nefasto, escuro, malcuidado, tanto é que o Coreto que havia ali já era. Raro, ainda aparece motociclista remanescente dos tempos áureos de motoclubismo, no mais, bagulheira, drogagens, perdição. Mantendo aparências, a Pizzaria Belú, em frente. Vez ou outra, uma boate ao lado da pizzaria, Ópera Pub e outros nomes idos, mas o “resgate” do lugar tem ficado mesmo por conta do Sarau Apoema, há dois anos jogando luz e poesia naquele pedaço, realizado por gente de iniciativa, iluministas, poetas, militadores.

Os camisas-pretas do rock e congêneres (darks, metaleiros, punks), que nos anos 90 transavam aqueles pedaços do Big Shopping e da Praça da Glória, pais de família nessas alturas do campeonato, deram lugar aos emos, homos, manos, rappers, famosinhos do funk, menininhas de shortinho ‘lá na cabeça’, com suas caixas de som penduradas no pescoço, fazendo rolezinho, duelo de MC’s, novas virações.

As gerações passam, meu chapa.

Ali perto da praça, os pontos comerciais da Norte Sul, hoje Av. Olímpio Garcia, continuam lá, mudando de nome, dono. A pizzaria Norte Sul é a mais tradicional do pedaço, onde trabalha a melhor garçonete da cidade e onde há música ao vivo; vez ou outra, ali se apresenta a Aline, violão e voz, a mesma que fez cover de Alanis Morissette nos lendários shows do estacionamento do Big Shopping, nos anos 1990.

Descendo ladeira, Rua Mulungu, entre Eldorado e JK, onde há o bar da Fátima, que se permite fechar mais tarde, onde jukebox e carteado fervem, e o Castelinho, que passou por poucas e boas, mas que graças ao jardim, continua com ambiente interior agradável. Na rua das Acácias, o bar do Fábio, revitalizado de estrutura, clientela clube do bolinha de sempre. Mais clube do bolinha no bar do Rocha, na avenida que leva seu sobrenome. Botequeiros inveterados, sem arranca-rabo, só papeações.   Subindo para a Av. João César novamente, alguém se lembra do Jet Club? Butecão, grandão, onde cantava-se em concorrida máquina de karaoquê, hoje virou feira-shop.

Boates, agora. Quem se lembra da Arena? Foi Focus, virou Arena, depois GintanaAbsolutaArca (gospel), até ser encampada pela rede New Texas, cujo dono elegeu-se vereador. Alguém ainda lembra-se da boate Abóboras? Ficou na saudade da contagense Edvane Freitas, que ali muito cantou. Subindo Av. João Cesar de Oliveira, houve a Tato, subindo, a boate Havana, mas que já foi Noiva do Cowboy etc.

No Santa Cruz, a Praça Paris e o propagandeado Peixe Vivo, ponto de paixões. Além disso, os bares Silvinho’s, cervejarias, choperias, churrascarias, casas de sinuca, enfim, beberagem, comilança, passatempo e paquera.

No Lindéia, os roqueiros ainda marcam presença, cada vez em menor número: “Não deixe o rock morrer, não deixe o rock acabar”, vão cantar qualquer dia.

No Monte Castelo, na Rua Corcovado, o Tropeiro do Zezé, pra ninguém botar defeito, o melhor da cidade e talvez das Minas Gerais. Botequins pacatos, aqui e ali, como o do seu Zé, na antiga Rua Rio Minho (hoje Padre José Maria de Man), com sua mesinha de sinuca, imortal.

No Fonte Grande, o Urbanos’ Bar, resistente. Novidade é a Fazenda Beer, grandão, fazenda mesmo, o charmozinho Bartô e o Ateliê Flávia Soares, ajardinado e cult.

No Novo Riacho, entre meados de julho e agosto, há o Festival da Juventude, opção de lazer para a comunidade e de revelação de novos talentos da música e poesia.

Em Nova Contagem, embora o pessoal de lá prefira ir para o Eldorado, havia o Bambuzinho, o Zero Hora, não sei se ainda existem. No Icaivera, o Esquinão da Cultura. A região de Nova Contagem é sempre um convite para uma escapadinha para Caracóis, em Esmeraldas, lugarejo simpático, ondas porções de carne são bem servidas a preço justo, não o miserê servido na cidade, e caro. Ali há o comércio, a igreja, a praça e a escola. Uma gracinha, um presepinho, uma cidadezinha cinematográfica. Tomara que ninguém descubra, senão a vampiragem estraga.

No Petrolândia, os bares ao lado da Praça Petrobrás, fora outros muquifos escondidos. Na Sede, o bar em frente à Praça Tancredo Neves/Prefeitura. Seguindo para o Alvorada, o escondido e altivo Café La Madre e, mais a frente, o complexo comercial em frente a caixa d’água, onde há o Restaurante Paulista.

Os espaços públicos estavam abandonados antes da gestão 2004-2010, malcuidados, desperdiçados, subutilizados; logo na primeira coletiva de imprensa, dei ideia na prefeita eleita para ela reformar as praças, espaços públicos; e ela fez, o povo não entendeu no início, torceu a cara, criticou, “que gastança é essa com praça?”, depois passou, assimilou, ocupou, confiou, levou família, hoje os espaços públicos da cidade tornaram-se pontos de encontro para a população, lugar de ensaios teatrais, exibição de filmes, academias de ginástica, seresta, cantata, shows, namoricos e salemalecos; povo presente, espaço vivo.

No geral, botecos, muitos botecos, espalhados por todos os cantos da cidade, do Petrolândia ao Industrial, do Nacional a Vargem das Flores. Em todos, bolinhas, luluzinhas, invernados, carros turbinados de som alto, máquinas de jukeboxkaraoquê.

As lâmpadas dos postes, com a luminescência laranjada do vapor de sódio, ilumina a vida noturna de Contagem, praças, ruas, asfaltos. A cidade cada vez mais violenta, candidata a MadmaxSin City, mas há algo de pacato em Contagem que permanece, entranhado, centenário.

A noite desceu e, como bem observou o poeta Carlos Drummond de Andrade, a noite dissolve os homens.