Rodrigo Starling: Nosso Poema-Homenagem! Parabéns BH 120!

Nosso Poema-Homenagem! Parabéns BH 120!



Viaduto Santa Tereza

Viaduto Santa Tereza – Belo Horizonte

 

BH FLÂNEUR 

Belo Horizonte. Boulevard Arrudas
Eu, rumo a Praça da Estação
Prócer ébrio, penseroso, um cão
Destinado ao baile das pulgas

Ad infinitum, o antigo ribeirão
Antro de desejos, passarela noir
Pont Neuf (de amantes) no ar
Cadafalso de amores vãos

Boêmio, revelei-me em brechas
Davi das artes, Golias dos ofícios
Coração, um museu de orifícios
Causado, pela língua e pelas flechas

Noite alva, instigando ao vicio
Rui Barbosa me fazendo Praça
Vislumbrados com as falsas magras
Na fachada imoral do edifício

Tal um trem cavalgando os trilhos
Trote lento, estação austera
Assustei-me com a veia aberta
Da meretriz e dos andarilhos

Lembro-me bem! Na orla da estátua
Tigres, leões e ninfas de mármore
Protegendo a obra prima de Starace
Da fria estação chamada mágoa

Luzia o bronze, a fálica bandeira
Excitado com o passado de glórias
Dei um grito! Celebrei a história
Exaltando a Inconfidência Mineira

Naquele instante, delirei, confesso:
Tiradentes em pedaços na Andradas
Eu, com Tomaz Antonio Gonzaga
Recitando o mortífero desfecho

De repente, tocaram-me no ombro
É Satã! Pensei apavorado!
Desmaiei, e acordei sedado
No SAMU que recolhe escombros

Com o soro pendurado pelas veias
Recitei Leonardo de Magalhaens
Veio a náusea dos malditos pães
Que me deram as lascivas enfermeiras

Furioso, debandei em desatino
Lancei-me nos rejeitos do petróleo
Machuquei o invólucro corpóreo
Bem em frente à Serraria Souza Pinto

Parindo um solilóquio de tristezas
Atravessando o sinistro viaduto
Na silhueta, enxerguei os vultos
Dos poetas de Santa Tereza

Era como se, na Alma dos Bairros
Do Cardoso de Contagem Town
Emergisse um paralelo down
Deste mundo de poéticos escarros

Aprofundando nos parnasos obscuros
Vi, então, vários seres plangentes
Suas pontas de cannabis reluzentes
Adornando a visão do submundo

Livre do medo e da própria decência
Adentrei na terrífica Floresta
Relutante, entrosei na conversa
Maldiziam (os poetas) sem clemência

Vi meu ego, dinossauro de apetrechos
Sucumbir frente à briga das raposas
Tamanha foi… A pudicícia rota
Dos vates escarnados pelos seixos

Mostraram- me a essência asquerosa
Dos cínicos saraus da falsidade
Onde uns são movidos pelo alarde
De uma falta de philia horrorosa

Trôpego, sai em disparada
Fugindo do pútrido festim
Testemunha do fatídico pasquim
Talhado aos artistas da palavra

Na Contorno, prossegui rumo ao futuro
Evocando um velho bardo: Leonel
Ao ocaso, em devaneios, a granel
Esbarrava a cabeça contras os muros

Ninguém compreendia tal suplício
Quando logo esbaldei-me na Savassi
Encarando a poesia face a face
Entre vinhos nos bistrôs dos edifícios

Foi Lá, na Diogo Vasconcelos
Les Deux Magots de Beagá
Que recitando Rimbaud e Beauvoir
Afinei minh’alma como um celo

Fiz o tempo parar por um instante
Excitando os corações cafeinados
Na boêmia névoa dos cigarros
Mise en scène dos paqueras e amantes

Devoto, segui a romaria estética
Inspirado, projetei-me na Colombo
Com teus autos, bulhas e ribombos
Repetindo a homilia poética

De repente, avistei Henriqueta
Fogo Fátuo, bronzeando a noite
Na Travessa, o poético açoite
Da OPA! na vanguarda de proveta

Brindei no Banquete de Ideias
À vida, as paixões e aos artistas
À conquista de espaço, às poesias
Aos gênios segregados pelas peias

Terminado o gozo do instante
Em ascese, rumando à liberdade
Caminhei à mimese de Versalhes
Ao urbano sarau da Mutuante

Hedonista, num êxtase sem esmero
Imerso em nostalgia vagabunda
Avistei a Rainha moribunda…
Da Sucata e riqueza dos mineiros

Temulento, vi a obra já armada
Sinuosa, leve, imprevisível…
É Niemeyer! O gênio do impossível
Nas curvas sensuais desta morada

Grato aos céus, à divina beleza
Fui ter à Basílica de Lourdes
Agradecer as góticas virtudes
De Túnes e outros ases da Nobreza

Em oração, prostrado, sem alardes
Senti a presença de Alphonsus…
E o sino dobrou em seis responsos:
“Pobre Starling! Pobre Starling!…”

Em prantos, nesta cisma obscura
Desci (prestíssimo) aquela via…
Como a nona de Bethoven, fugidia
Ao Centro de Cultura da Bahia

Tamanha foi a pressa insana
Que não vi a famosa inscrição
Do País que em outra geração
Compôs a rota: flânerie urbana

Rumei à taberna do Malleta
Clube de tantas, agudas Esquinas
Todos: artistas, mulheres da vida
Sob as asas do Arcângelo asceta

Minh’alma misturada à do vinho
Novo delírio: envelope com sinete
Vi Olímpio entregando um bilhete
A dois homens oponentes do AI-5

Perturbado, decidi descer…
E vi, como num sonho hilário
Um louco cruzamento imaginário
D’Afonso Pena com Champs Elisée

Chega! Urrou o lobo cerebral
Deste rito, magnético, distante
Que seduz pelo poder do instante
Tal monera, instintiva, animal

Com dos Anjos na Augusto de Lima
Li tEUs versos, lamentos, desatinos
Esperando a Mercedes da Abílio
Vomitar-me (de volta) à casa fria.

Rodrigo Starling em “Nós e outros poemas”, 2010.

 

Igreja da Lourdes - BH

Igreja de Lourdes – Belo Horizonte

 

Rodrigo Starling – Filósofo, escritor e poeta, natural de Belo Horizonte (MG). Pós-Graduado em Gestão de Políticas Sociais (PUC Minas) e mestre em Ciências Políticas (ULHT Lisboa). Autor de oito livros, figura em coletâneas no Brasil e no exterior. Em 2004, fundou a Oficina de Produção Artística (OPA), hoje, MINAS VOLUNTÁRIOS, ao qual preside. Em 2006, criou a Starling Consultores, com atuação nas áreas cultural e social. Laureado: Menção Nosside XXIV – UNESCO World Poetry Directory; Medalha Resgate da Cidadania; e Medalha Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais – INBRASCI. Em 2013, foi nomeado Embaixador da Paz pelo CUAP – Genebra, Suíça.
Contato: +55 31 99292-9805 – Facebook/rodrigostarling.77