O peso existencial de nossas escolhas

A vida é um verbo em constância e ação. O mundo se impõe e cabe a nós, meros mortais, nos reinventar nele, constantemente. No amor ou na paixão, no trabalho ou na balada – na vida tudo é questão de escolha e o destino não tem nada a ver com isso.

Por Isabela Boechat

Sartre dizia que o homem deve escolher-se em todas as circunstâncias. A escolha, por sua vez, exige renúncia. Logo, vivemos uma vida de abdicações. A não-escolha é um não querer, um presente que não se impõe – um futuro que não se realiza. A vida é um verbo em constância e ação, essa se realiza no presente e projeta-se num futuro incerto. Para viver uma vida, deixamos para trás muitas outras. Ser-escolher-abdicar, verbos consoantes de elocuções em expressão com o pensamento e, nós, como humanos, resta-nos a responsabilidade cabível a cada escolha dos atos póstumos.

Woody Allen, em o “Homem Irracional”, dialoga sobre o peso existencial de nossas escolhas. O homem é mesmo um ser racional? Ou, nossas emoções acabam por definir quem nós somos? Sartre dizia que o homem é aquilo que faz de si mesmo, ou seja, é a partir de seus atos que o ser humano se coloca em questão. Escolher é doer-se.

A vida não tem sentido a priori, antes de viver somos coisa nenhuma, afirmava Sartre. É a possibilidade da morte que torna a vida interessante – o medo da não-existência faz com que o ser humano tenha expectativas e satisfações em exercer suas ações. Ao escolher estamos aptos a aceitar quaisquer conseqüências futuras, a escolha, teoricamente, é um ato racional, porém a ditadura de nossas emoções dentro da gente delineia influências que se conflitam com os verbos pouco irracionais de nossas ações.

“O amor é uma questão de escolhas. É uma questão de tirar os venenos e as adagas da frente e criar o seu próprio final feliz”. O amor é verbo em ação, como diz Espinosa, ele é afetado por nossa decisão de escolha – de optar ou não por experienciar enredos, de optar ou não pela fuga. A paixão é tão irracional que nossas escolhas se perdem em meio ao caos insano da mente. Mas, até mesmo a passividade de não escolher é uma ação e uma vontade que se expressa. A vida humana é feita de escolhas. Sim ou não. Ficar ou ir embora. Falar ou se calar. Há escolhas indiferentes e outras que se destacam na vida. Amar e odiar, por exemplo, não podemos escolher não sentir, mas temos o poder de escolher sobre o que fazer desses sentimentos dentro da gente. E essas escolhas influenciam os enredos próximos da realidade.

Henri Bergson dizia que consciência é sinônimo de escolha. Ser consciente de nossas ações faz com que tenhamos a responsabilidade sobre os efeitos colaterais sobre essa vontade de potência. Entretanto, os outros influenciam nossas decisões – principalmente quando o outro nos envolve sentimentalmente. A nossa querência, vez ou outra cega, faz com que as nossas ações sejam pouco irracionais, ou totalmente insanas. Essa influência sobre o outro é perigosa, é um controle idealizado inconscientemente sem a somatória de danos remediáveis só com o tempo.

“Pode-se prometer ações, mas não sentimentos, pois estes são involuntários”, afirmava Nietzsche. O ser humano se autodestrói ao prometer ações atreladas à feições – primeiro, essas promessas são frágeis; segundo, não temos controle sobre a perpetuação dessas feições; terceiro, não temos o poder de escolha sobre emoções, pois, como dizia o filósofo, são involuntárias.

O homem, portanto, não é nada além do que o conjunto de seus atos. Esse nada mais é do que o seu projeto, se projetamos nos outros a nossa realização estamos condenados a uma existência vazia sem significação – pois, ninguém pode salvar o homem de si próprio, muito menos a espera que o outro traga significação pro vazio que nos habita. Se até o sentimento se constrói através dos atos práticos, como dizia Sartre, todo o resto é a compreensão dos reflexos ocasionados por nossas escolhas.

A vida não tem sentido a priori, antes de viver somos coisa nenhuma, afirmava Sartre. É a possibilidade da morte que torna a vida interessante – o medo da não-existência faz com que o ser humano tenha expectativas e satisfações em exercer suas ações.

ISABELA BOECHAT

Graduanda em Comunicação Social – Jornalismo na UFMG e, um bocadinho escorpiana. Encontra-se no caos, e perde-se na sinestesia poética dos versos de Drummond.

 

Fonte: © Obvious      Follow us: @obvious on Twitter | obviousmagazine on Facebook