CENSURA – Política, Religião e Arte

Imagem do topo: “Baco com Ninfas e Cupido” – Caesar Van Everdingen (Cesar Pietersz) – Óleo sobre tela pintado em 1660.

 

Por Iara Abreu

A arte e o artista vêm sofrendo constrangimentos por parte de pseudo políticos e religiosos. Penso que, para ocupar qualquer cargo político, deveriam ser classificadas e aceitas pessoas com o mínimo de preparo intelectual e humanismo para entender o papel e importância da arte na vida e no decorrer da história da humanidade.




A arte, bem como a ciência, sempre fizeram seu papel. Geram discussões, reflexões, o que considero positivo e evolutivo, se assim observarmos a história.

Todos nós somos arte, ciência e religião. Ninguém desrespeita ninguém. A intolerância, o medo e a ignorância pelo não conhecimento, é que batem de frente e geram polêmica. Temos uma diversidade de opiniões e olhares em todos os níveis de nossa existência. E não se joga uma pessoa na fogueira porque pensa diferente, até porque contamos com várias realidades e crenças, e não temos certeza de nenhuma delas. A religião já botou muita gente na fogueira por causa de crenças, mas a inquisição já passou.

Como artista plástica por formação acadêmica, sempre em atividade cultural, e não uma pessoa omissa, não posso me calar diante de falas absurdas e deixar de comentar os acontecimentos que giraram em torno dos manifestos/vigília contra a censura, no lançamento do CENSURA NUNCA MAIS, FNCC – Frente Nacional Contra a Censura, que aconteceu no Palácio das Artes no período de 27 de outubro a 21 de novembro de 2017, culminando nos dias 21 e 22.

“Vieram Pedófilos de todo o Brasil para se reunirem à frente do Palácio das Artes”… (palavra de um deputado, em plenário).

Classificar a todos nós, artistas, diretores, produtores de arte e cultura, em manifesto anti censura (o que é legal e de direito) de pedófilo é abominável, além de patético, pois se  houvesse  uma reunião nesse nível, em qualquer lugar, a polícia é que deveria ser acionada, e com urgência não é mesmo?

Essas e outras expressões, coibições e censura, para com as artes visuais principalmente, que vêm ocorrendo, são abomináveis, absurdas, ofensivas que requerem uma reflexão e uma séria discussão. Eu estava por lá e só vi um manifesto intelectual, sóbrio, organizado e repleto de pessoas batalhadoras e produtoras de cultura e arte, da cidade e de outros locais.  Afinal estamos numa democracia ou não?… É necessário entender que “ARTE” vai muito além do conceito de um quadro “bonitinho” que se coloca na parede para combinar com o sofá, com a mesa, com o tapete, com a parede e etc. (mas que também pode ser).

Iara Abreu

É necessário, principalmente que políticos e religiosos leiam um pouco sobre a história da arte, para entenderem melhor os assuntos artísticos e as exposições; entenderem seus significados, suas mensagens, seus conceitos e entenderem que arte, religião e política se misturam e compõem a existência humana desde sempre.

Assim, diante de estudos e conhecimentos poderão evitar esses procedimentos e ações não inteligentes, equivocados e grosseiros em relação à arte e ao artista, em Belo Horizonte e em todo o país. O conhecimento elucida e clareia o raciocínio e a compreensão. Sobre essas polêmicas relativas às exposições penso que, se o artista tivesse feito uma exposição temática abordando a sexualidade dentro da igreja, dentro de um templo religioso, ou nas ruas, eu concordaria com os devotos de se sentirem desrespeitados. Mas não é o caso. O artista está lá no seu lugar: que é a galeria e/ou museus. Entram nesses espaços, os interessados em ver o que é exposto. Assim como entram em Igrejas ou templos religiosos, interessados em rezar ou orar.

A polêmica sobre a “exposição que aconteceu no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), no dia 28 de setembro de 2017, mostra uma menina, que aparenta ter em torno de cinco anos, tocando os pés de um artista nú que estava imóvel e deitado sobre o chão”.  Será que se fosse uma mulher nua, onde um menino lhe tocasse os pés, teria havido toda essa polêmica? Provavelmente não! O machismo aí estaria atrelado não é mesmo?… Pensem nisso! Além do que, uma criança não entra nesses espaços sozinha e cabe ao adulto que lhe acompanha, decidir sobre o que ela deve e/ou pode ver isso ou aquilo. Nesse caso específico a criança estava ali diante de muitas pessoas e acompanhada de sua mãe que é cenógrafa e que portanto deve dialogar e entender muito bem a arte na sua excelência, por ser do métier.  Não caberia nem discussão, a meu ver.

Nas galerias e museus de todo o mundo, há pinturas e esculturas com todo o tipo de linguagens e diálogos que abordam a nudez, a sexualidade, a política e todos os assuntos, que ilustram nossa existência. As representações estão lá nas mais diferentes formas e técnicas desde sempre.

Velásquez (que faleceu em 1660, séc. XVII) que além de grande artista e também um colecionador, adquiriu uma bela escultura que representa um hermafrodita. Temos aqui, o escultor Higino que com a série “o sexo dos anjos”, com peças expostas em outros países, “por sinal”, belíssimas!

Então percebe-se que todas as religiões com seus significados e representações como: Cristo,  anjos, santos, cruzes, deuses, orixás, e etc., sempre estiveram presentes nas artes. Todas essas simbologias são expressões também culturais. E não se pode negar a cultura ou colocar a religiosidade acima dela. Ambas se confundem. Esses impasses entre arte e religião, estão visualmente e maravilhosamente registrados.

Penso que, Igreja é lugar do religioso e seus fiéis. E espaços culturais, galerias e museus são lugares da arte e do artista… Podemos não gostar de muitas coisas que se mostram, o que é de direito e pessoal. Mas, censurar e/ou denegrir a arte e o artista é ser um ignorante pelo não conhecimento e um desinformado por falta de interesse. Procedimentos assim, de “crucificação” do artista e de sua arte por parte desses pseudo políticos e religiosos, sugerem um fundamentalismo religioso, péssimo, nocivo e retrógrado. Ou, talvez seja uma maneira de políticos fazerem média e garantirem seus gordos bolsos, pela “ordem superior” e pelos votos dos fiéis.

A cultura e a arte são um zero a esquerda para a classe política, quando se trata de direcioná-las ao povo, é o que percebemos desde sempre. Religião e política fomentam e fazem guerra. O artista não. Ele apenas se expressa, materializa a beleza, materializa a feiúra e gera reflexões. E não é possível retornarmos à “inquisição”. É patético e inaceitável! Mas, no fundo bem sabemos que essas polêmicas são para desviar o foco dos verdadeiros problemas, diariamente noticiados, que são as aberrações políticas de um sistema minado e falido.

Iara Abreu

A arte, bem como a ciência, sempre fizeram seu papel. Geram discussões, reflexões, o que considero positivo e evolutivo, se assim observarmos a história.

Iara Abreu é natural de Belo Horizonte, onde reside e trabalha. Artista plástica por formação acadêmica, graduada em desenho, plástica e educação artística pela antiga FUMA, atual UEMG e Ilustradora. Pesquisa e trabalha diversas formas de expressar sua arte a partir de vários suportes, técnicas e linguagens artísticas. Sua temática preferida é a “cidade”, a “urbe”, com sua geometria, suas cores, suas dificuldades, mas também suas possibilidades. A artista tem em seu currículo várias exposições individuais e coletivas podendo citar: projeto/livro “100 artistas em comemoração ao Centenário de Contagem; 400 anos de Dom Quixote / Biblioteca Pública do Rio de Janeiro (exposição e acervo); Bienal do desenho na The Foundry Gallery em Londres; primeiro “Verão arte contemporânea, no Teatro Francisco Nunes; 250 anos de Mozart, Museu Mozarthaus (Áutria); “O olhar do artista para o livro esquecido ”na Sala Ana Horta, UFMG; projeto “Arte Correo” -Livro Objeto, Casa Del Bicentenário em Santa Fé; Argentina; e outras exposições em Belo Horizonte, outras cidades e países. Idealizadora e curadora de três projetos coletivos: “certos movimentos incertos” – artes visuais e poesia, “Aspectos Urbanos”- Artes visuais e poesia, que teve início em 2005 no Centro Cultural de Contagem, passou por várias galerias e espaços culturais, sendo a última mostra na Casa dos Contos em Ouro Preto e projeto “Ateliê’s, pintura coletiva, arte plural”, coletiva com a participação de mais de trinta artistas.Blogs: iluarti.blogspot.com e iaraabreu.blogspot.com – iaraabreu2009@gmail.com – Fone: +55 31 99691-5104